Um levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), com base nos dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan/Ministério da Saúde), trouxe à tona números preocupantes sobre a saúde mental da juventude no Brasil. Entre 2023 e 2024, a Bahia registrou 143 mortes de crianças, adolescentes e jovens de 10 a 19 anos decorrentes de lesões autoprovocadas, consolidando-se como o estado com o maior índice de óbitos desse tipo no Nordeste.
No mesmo período, a região nordestina contabilizou 616 mortes, sendo que além da Bahia, o Ceará (110 casos) e Pernambuco (88 casos) aparecem em posições críticas. Os dados acendem um alerta para a urgência de ações que contemplem prevenção, acolhimento e fortalecimento da rede de saúde mental infantojuvenil.
Quando a autolesão sinaliza perigo
De acordo com o pediatra Cefas Gonçalves Pio de Oliveira, vice-presidente da Sociedade Baiana de Pediatria, nem sempre a autolesão tem relação direta com o desejo de morrer. Muitas vezes, é um comportamento silencioso que pode evoluir para algo mais grave:
“Esse paciente tem maior chance de cometer suicídio no futuro. Precisamos estar atentos a como detectar as autolesões, porque muitas vezes eles não chegam ao consultório com essa queixa”, explicou.
Segundo o especialista, é comum que adolescentes procurem atendimento relatando sintomas como dores de cabeça ou mal-estar, enquanto escondem cortes, arranhões ou queimaduras no corpo.
A visão da psicologia: dor invisível que pede atenção
A psicóloga Ana Paula Carregosa reforça que os atos de automutilação raramente são apenas “para chamar atenção”. Na prática, eles funcionam como uma fuga diante de dores emocionais intensas.
“Pode ser uma autopunição, uma forma de regular sentimentos desagradáveis ou até mesmo um pedido de ajuda. A questão é que muitas vezes familiares não conseguem interpretar isso da maneira correta”, explicou.
Entre os sinais de alerta que familiares e amigos devem observar, estão:
A especialista destaca que o diálogo deve ser acolhedor e sem julgamentos. A terapia, segundo ela, é essencial para que o adolescente aprenda a desenvolver habilidades emocionais, encontre alternativas saudáveis para lidar com crises e reduza os riscos de reincidência.
Família também precisa aprender
Outro ponto destacado por Ana Paula é o papel dos familiares. Muitos adultos, segundo a psicóloga, não tiveram acesso à educação emocional e podem sentir dificuldades em compreender o sofrimento dos filhos.
“O tratamento não envolve apenas o adolescente, mas também a família, que deve aprender a ser rede de apoio e não de cobrança ou punição”, ressaltou.
O retrato nacional
Os dados também mostram que a situação é preocupante em todo o país: a cada 10 minutos, um adolescente pratica algum tipo de autolesão ou tentativa de suicídio no Brasil.
Em números absolutos, os estados que mais registraram casos foram:
Já na divisão por regiões, o Sudeste concentra quase 47 mil notificações, seguido pelo Sul (19.653) e pelo Nordeste (19.022). Especialistas alertam, porém, que esses dados podem estar subnotificados, já que muitas ocorrências não chegam a ser formalmente registradas.
Um desafio coletivo
Os números reforçam a necessidade de políticas públicas integradas que abordem a saúde mental de forma ampla, passando pela escola, família e serviços de saúde. Para especialistas, a solução não está apenas em ampliar atendimentos, mas em construir espaços de escuta e acolhimento, capazes de transformar a realidade dos jovens que, em silêncio, pedem ajuda.
Redação: Rádio Vida, com Informações do g1 BA
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