A política baiana voltou a entrar em ebulição nos últimos dias após a divulgação de uma análise do Grupo Metrópole que colocou o senador Ângelo Coronel (PSD) no centro de uma das maiores tensões recentes do campo governista. Apontado como protagonista de uma suposta “traição”, Coronel passou a ser tratado como vilão de um enredo que, na prática, revela algo mais profundo: o desgaste de um arranjo político construído ao longo de anos sob conveniência, não necessariamente sob lealdade.
A trajetória de Ângelo Coronel no cenário estadual é conhecida. Sua ascensão se deu com forte apoio do senador Otto Alencar e do grupo petista, que lhe abriu espaço e sustentação política. Esse histórico, frequentemente lembrado por críticos, é inegável. O que raramente aparece com a mesma ênfase, porém, é o custo desse apoio. Coronel nunca foi apenas beneficiário do sistema; também foi operador e fiador de equilíbrios internos, cumprindo papéis estratégicos sempre que o grupo precisou.
O rompimento com Otto Alencar, portanto, não pode ser reduzido a um gesto isolado de infidelidade política. Trata-se do desgaste natural de uma relação marcada mais por interesses cruzados do que por afinidade ideológica. Nos bastidores, Coronel passou a demonstrar incômodo ao perceber que sua força política servia, muitas vezes, para viabilizar projetos alheios - como na articulação que abriu caminho para o filho de Otto Alencar no Tribunal de Contas do Estado (TCE) - sem que houvesse retorno proporcional ou reconhecimento.
Esse conflito interno se conecta a um movimento ainda maior: a montagem da chamada chapa “puro sangue”, articulada por Rui Costa, Jaques Wagner e o presidente Lula. A decisão de fechar o projeto majoritário apenas no campo petista foi vista por aliados como um gesto de força, mas também como um sinal de arrogância política. Ao restringir espaços e ignorar parceiros históricos, o PT acabou produzindo fissuras que agora emergem com força.
Quem sente o impacto direto dessa estratégia é o governador Jerônimo Rodrigues. Ele governa sob dupla pressão: de um lado, o desgaste natural de quase duas décadas de administrações petistas na Bahia; de outro, uma oposição que se reorganizou e ganhou fôlego. Liderado por ACM Neto, o campo oposicionista tem mostrado capacidade de mobilização mesmo fora de cargos eletivos, ocupando espaços no debate público e ampliando sua presença política.
Enquanto isso, figuras centrais do PT, como Rui Costa e Jaques Wagner, acompanham o cenário à distância. O cálculo político é evidente: se Jerônimo conseguir atravessar a tempestade, o partido se fortalece; se fracassar, o ônus recai quase exclusivamente sobre o governador, que herdou um projeto de poder já tensionado.
O embate envolvendo Ângelo Coronel, portanto, vai além de acusações de traição. Ele escancara os limites de um modelo político baseado em alianças funcionais e revela que os próximos capítulos da política baiana tendem a ser marcados menos por discursos públicos e mais por movimentos de bastidores - com potencial para expor acordos, disputas internas e escolhas estratégicas que moldaram o poder nos últimos anos.
O jogo está longe do fim. E, ao que tudo indica, ainda há muito a ser revelado.
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